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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

“Sem um nome, não existimos”, diz transexual pioneiro no Brasil


Rio de Janeiro - O movimento TransRevolução abre a programação das diversas atividades do Dia Nacional da Visibilidade Trans, na Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

João Nery foi o primeiro transhomem a se submeter a cirurgias de redesignação de gênero no Brasil, há mais de 30 anos Tânia Rêgo/Agência Brasil

POR AGÊNCIA BRASIL
Aos 66 anos, João Nery anda com dificuldade, apoiado em uma muleta. Foi assim que o ativista chegou hoje (27) a uma mesa redonda sobre o Dia da Visibilidade Trans, comemorado no próximo domingo (29), no Instituto Nacional de Infectologia da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.

O primeiro transhomem a se submeter a cirurgias de redesignação de gênero no Brasil, há mais de 30 anos, está desempregado. Seu sustento vem da venda seu livro Viagem solitária: Memórias de um transexual trinta anos depois e da aposentadoria da mulher, com quem está casado há 20 anos.

Antes dos procedimentos para adequar seu corpo ao gênero com que se identifica, o masculino, ele chegou a se formar em psicologia. Seu diploma foi cassado quando registrou-se como João em um cartório, ainda na década de 1970, muitos anos antes de a Justiça decidir em favor da mudança de registros civis de qualquer transexual no país. A mudança já é possível atualmente, mesmo que ainda não haja uma lei no país que regulamente a modificação dos documentos. Para João, essa é a principal necessidade de um transexual brasileiro.

“Acho que a necessidade fundamental é o reconhecimento de um nome. Sem um nome que nos represente, não existimos, somos completamente invisíveis, abomináveis, objetos na sociedade”, desabafa João Nery, que dá nome a um projeto de lei que tramita no Congresso e trata da regulamentação das retificações de documentos para transexuais. “A aprovação desse projeto de lei seria a nossa liberdade”.

O projeto de lei, proposto pelos deputados federais Erika Kokay (PT-DF) e Jean Willys (PSOL-RJ), está na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e recebeu parecer favorável do relator em maio do ano passado. Apresentado em 2013, o texto ainda precisa passar pelas comissões de Seguridade Social e Família, Finanças e Tributação; e Constituição, Justiça de Cidadania antes de ir ao plenário da Casa.

Se ainda há muitos passos a serem dados na aceitação da população trans no país, os transhomens são um grupo ainda mais marginalizado, segundo João Nery.

“É preciso avançar muito também dentro da sociedade LGBT. Em tudo, há hierarquias. Quanto mais parecido com o cis [pessoa que se identifica com o gênero de seu registro de nascimento] você fica, mais você está no topo da pirâmide. Eu faço um trabalho de despreconceito dentro da população trans”, diz o ativista. João conta que trabalha até 14 horas por dia no Facebook ajudando pessoas trans a conseguirem assistência de profissionais capacitados.

Em um censo que organiza na internet, o ativista contabiliza mais de 3 mil transhomens no Brasil e tenta ajudá-los a criar grupos locais para que fiquem em contato com psicólogos, médicos e advogados próximos a suas residências. “Já tive infarto e fiquei um mês na CTI [Centro de Terapia Intensiva] de um hospital. Os profissionais de saúde não estão preparados para lidar com o corpo trans”, relata.

Rio de Janeiro - O movimento TransRevolução abre a programação das diversas atividades do Dia Nacional da Visibilidade Trans, na Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Mesa redonda na Fiocruz abriu a programação de atividades do Dia da Visibilidade Trans, comemorado no próximo domingo (29)Tânia Rêgo/Agência Brasil


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