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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A transformação do pensamento

Nova publicação em Universo Natural

A transformação do pensamento

by José Batista de Carvalho
A transformação do pensamentoDesejo, se possível, discorrer sobre o problema da transformação. Considerando-se a situação mundial, as condições de penúria, as guerras, a competição, o incessante conflito entre os homens, a extraordinária prosperidade de algumas nações e a pobreza extrema reinante no Oriente, onde milhões de pessoas só tomam uma refeição por dia, ou nem isso - considerando-se tudo isso, torna-se bem clara a necessidade de uma radical transformação, de uma mudança revolucionária de alguma espécie. E, acredito, deve ser óbvio, a quem já pensou neste assunto, toda mudança operada por ajustamento, compulsão ou temor, não é transformação nenhuma. Simples mudança periférica, um mero ajustamento na  circunferência — ajustamento político, econômico, social ou, mesmo, religioso — não é revolução. A revolução naturalmente, tem de operar-se no centro, e não na circunferência, no lado externo; e como pode realizar-se essa revolução no centro?

Estou empregando a palavra “revolução” com conhecimento de causa, visto que, se houver uma mudança no centro, teremos uma verdadeira revolução, uma completa transformação do pensamento; e só verificar-se esta revolução no centro podem operar-se mudanças significativas no exterior, na periferia.
Mas nós, geralmente falando, não queremos a revolução central, e sim, apenas, mudanças exteriores — queremos uma situação econômica melhor, mais riqueza, mais conforto, mais prosperidade, mais luxo, e uma maior variedade de entretenimentos e distrações. É isso o que interessa à maioria de nós. Ou, trocamos uma especialidade por outra, uma religião por outra, um dogma por outro; o que significa, simplesmente, passar de uma gaiola velha para uma gaiola nova.
E se temos disposições sérias, falamos sobre a necessidade de abolir a guerra — o que, mais unia vez, significa cogitar sobre a maneira de produzir modificação no exterior. As pesquisas científicas, as reformas sociais, os ajustamentos políticos, tudo isso — assim como as várias religiões e sociedades sectárias — só diz respeito a modificações exteriores.
Ora como produzir uma transformação no centro? Este é o problema da maioria de nós, não achais? Se estamos seriamente intencionados e reconhecermos quanto é superficial andarmos só em busca de um emprego melhor ou de uma solução imediata para os nossos problemas econômicos, políticos, ou religiosos, desejaremos naturalmente saber se é possível efetuar-se uma transformação no centro, a qual, por sua vez, produza uma transformação em nossas relações com a família, com os companheiros, enfim, com a sociedade.
Não sei se já refletistes sobre este assunto; considero-o, porém, uma questão fundamental, que não se pode facilmente desprezar. Temos tentado durante anos reformar-nos exteriormente, procuramos transformar as nossas maneiras, pensamentos, conduta, nossa sociedade, e daí não resultou nenhuma mudança radical, nenhuma libertação de forças criadoras; e a mim me parece que, sem essa profunda revolução interior, central, será vão  todo esforço que empregarmos para modificar as coisas exteriores.
Nossos esforços poderão produzir modificações momentaneamente satisfatórias; entretanto, se a revolução não for efetuada no centro, a mera alteração da circunferência, da parte externa, é mui pouco significativa e poderá, eventualmente, conduzir a malefícios maiores ainda.
Compreendendo isso, averiguemos como se pode efetuar essa transformação, essa revolução no centro. Que é esse centro? Ora, é a mente; e nós vamos averiguar se a mente pode modificar-se, se pode produzir em si mesma uma evolução interior.
A mente, como é óbvio, constituída de níveis conscientes e níveis inconscientes; e todo esforço da mente consciente para se modificar está sempre compreendido na esfera exterior. Vede bem a importância disso.
Como já disse — se posso repeti-lo, sem enfadar-vos — é muito importante saber escutar. Quando se faz um esforço consciente para escutar, para compreender, esse mesmo esforço dificulta a compreensão. Quando aplicais toda a vossa atenção à tentativa de descobrir algo, vossa mente fica num estado de tensão e, por isso, não há “escuta”, não há penetração, não há reação espontânea a algo que se não compreende perfeita e plenamente. Todavia, o “escutar” exige uma certa atenção, porquanto não significa que vos ponhais simplesmente a dormir. Mas “escutar” é coisa muito diferente de “ouvir”.  Podeis ouvir o que estou dizendo e compreender a significação das palavras; porém, se a vossa mente não ultrapassar a mera comunicação verbal entre nós dois, não haverá compreensão real.
O que estou tentando transmitir não é tanto a significação verbal, quanto, principalmente, as coisas existentes entre as palavras, no espaço, no intervalo entre os pensamentos. Se a mente puder estar quieta, atenta para o que se acha entre as palavras, se puder pôr-se em tal estado de “afinação”, será então capaz de “escutar”’ integralmente, na totalidade; e é possivelmente, o que traz a revolução, e não o esforço consciente para compreender. A maioria de nós conhece o esforço consciente de modificar, de disciplinar a mente, e, por esse motivo, o que chamamos modificação representa uma operação parcial, e não uma revolução total. E eu estou-me referindo à revolução total, integral, e não à ação parcial, de superfície; e essa revolução pode verificar-se por meio de nenhum esforço consciente de nossa parte.
Sabemos o que é a consciência, estamos bem familiarizados com a mente consciente que pensa e deseja, movida pelo impulso, pela intenção, e determina o ajustamento. A mente consciente está sempre forcejando em determinado sentido, ou para ajustar-se pelo temor, ou, ainda pelo temor, transformar-se, a fim de adaptar-se a outro padrão de ação. Por conseguinte, todo esforço visante a uma modificação é um ajustamento sob a influência do temor, do desejo de termos bom êxito ou do desejo de nos tornarmos melhores, para alcançarmos um certo resultado, seja neste mundo, seja no mundo da santidade.
É urgentemente necessária uma revolução profunda, mas, é óbvio, essa revolução deve ser inconsciente; pois, se produzo deliberadamente uma revolução em mim mesmo, será resultado de desejo, da memória, do tempo. Desejo tornar-me melhor, conseguir um resultado, descobrir o que é Deus, o que é a Verdade, ser mais feliz; por isso digo que há necessidade de transformação.
O esforço positivo ou negativo, o esforço para ser ou não ser, se baseia no temor, na ânsia de ganho, de conforto, paz, segurança; assim, pois, toda modificação operada por um esforço consciente não é verdadeira transformação e, sim, puro ajustamento a um padrão diferente. A esse respeito, temos de perceber a verdade completamente.
Como todas as revoluções econômicas, quer da direita, quer da esquerda, o esforço consciente não produz nenhuma transformação no centro. Ambas as coisas só produzem tiranias. O sábio, portanto, não se preocupa essencialmente com modificações periféricas: interessa-lhe só a revolução interior, a revolução que se opera no centro. E como iremos, vós e eu, produzir essa transformação?
Não sei se percebeis a importância desta questão. Todas as escolas de religião, todas as sociedades religiosas, procuram produzir modificação por meio de esforço consciente, por meio de disciplina, ajustamento, temor, por meio do desejo de alcançar uma situação melhor, quer socialmente, quer religiosa ou psicologicamente; e tudo isso está compreendido na esfera exterior.
Sem dúvida, porém, o homem que, conscientemente, se está tornando virtuoso, é imoral, uma vez que é virtuoso no interesse da própria segurança, do próprio conforto e felicidade. Não estamos falando dessa espécie de mudança ou transformação.  Como então efetuar essa revolução no centro? Vemos que o esforço deliberado e consciente do nosso pensamento ordinário não pode realizá-la. E pode o inconsciente fazê-la?
Compreendeis o que queremos dizer quando nos referimos ao “inconsciente”? O inconsciente é o resíduo do passado, não é exato? É o resultado dos instintos raciais, das impressões culturais, de tudo o que fomos no passado, de toda a luta do homem contra seus ocultos intentos, compulsões, ímpetos.
Pode esse inconsciente ajudar-nos a operar uma modificação, uma revolução no centro? E existe alguma diferença, algum intervalo ou hiato entre o inconsciente e o consciente? Sem dúvida, a mente consciente, a mente que está desperta durante o dia, funcionando em nossas atividades diárias, é apenas a orla do inconsciente, não é verdade? Não há diferença fundamental entre os dois (o consciente e o inconsciente).
Assim como a folha de uma árvore é o produto das suas raízes, aprofundadas no seio da terra, assim também a mente consciente é o produto do inconsciente profundo. Não há distinção entre eles; não são duas coisas diversas; nós é que não estamos familiarizados com o inconsciente.
É-nos familiar a mente consciente, a atividade diária de ganância, competição, ciúme, inveja, o desejar uma coisa e não desejar outra, a nossa luta incessante; mas os mesmos impulsos encontram-se também nos níveis mais profundos, não é verdade? Pode-se, pois, contar com o inconsciente para se realizar uma transformação radical?
Se prestais atenção ao que estou dizendo e o seguis sem esforço, encontrareis a solução correta; e descobrimento da solução correta é a revolução ao centro.
Qual é o estado da mente quando não há esforço algum, nem por parte do consciente nem do inconsciente? Existe, então, um centro? Para a maioria de  nós existe um centro, que é o “eu”, o “ego”; e se esse centro se acha num nível superior ou inferior, isso não tem grande importância.
O centro é o “eu”, o instinto de aquisição, que se expressa no possuir propriedades, no desejo de nos tornarmos melhores, de adquirir virtudes, pelo controle, pela disciplina e tudo o mais. Temores, ansiedades, disposições de ânimo, anelos, esperanças, fracassos, frustrações — tal é o centro que conhecemos, não é verdade? E o fazer cessar completamente esse centro, é a única revolução verdadeira; essa revolução, porém, não é possível por meio de esforço por parte do consciente ou do inconsciente.
Pois bem. Quando percebemos tudo isso, qual é o estado da nossa mente? Evidentemente, a primeira reação é um sentimento de ansiedade, de temor, de desconhecimento do que vai acontecer.
O “eu”, o centro, que é uma acumulação de inúmeras reações, inúmeras influências culturais, políticas e religiosas - esse centro é que tem funcionado até agora; e se queremos que esse centro desapareça de todo, para que a mente seja pura, incorruptível, única, singular, a primeira reação, por certo, é um tremendo sentimento de negação, de não-ser; e mui poucos de nós somos capazes de suportar tal coisa, que significa olhar de frente o que na realidade somos.
Por conseguinte, no centro existe temor, e, refugiados nesse centro, começamos a levantar defesas, a apegar-nos aos nossos dons, capacidade, talentos, produzindo desse modo o conflito constante entre o que somos realmente e o que gostaríamos de ser. E, entretanto, em momentos lúcidos, percebemos que esse mero lidar com coisas exteriores nunca produzirá uma revolução profunda, duradoura, fundamental.
Nessas condições, aqueles dentre nós que tiverem intenções sérias e inclinações religiosas, hão de interessar-se necessariamente por esta questão da revolução no centro.
Uma vez que nem a mente consciente nem a inconsciente pode produzir uma transformação fundamental no centro, o que deve a mente fazer? Pode ela fazer alguma coisa? Como vimos, a mente tanto é atividade consciente como atividade inconsciente de pensamento, de reação, de memória.
A mente é resultado do tempo, e o tempo não pode produzir revolução. Ao contrário, só o cessar do tempo produz a revolução. O centro está afeito ao tempo, o centro é tempo, é todo o “processo” psicológico de ontem, hoje, amanhã - eu fui, eu sou, eu serei - frustração, temor, esperança.
Como vemos, a mente não pode produzir revolução; quando o faz, cria mais brutalidade, mais tiranias, mais horrores, e a compulsão totalitária. E se a mente é incapaz de efetuar uma transformação radical, qual é então a sua função?
Espero me estejais seguindo, porquanto não falo para mim mesmo, mas também para vós. Acredito, se essa extraordinária pudesse realizar-se em cada um de nós, criaríamos um mundo diferente, seríamos missionários de uma nova espécie, de uma espécie inteiramente diversa, não daqueles que convertem, mas dos que libertam.
Qual é, pois, a função da mente, ao reconhecer que nenhum esforço, consciente ou inconsciente, da sua parte, pode produzir, urna transformação completa? Que deve ela fazer? Apenas, ficar tranquila, não é verdade? Todo esforço de sua parte para modificar-se é produto de seu condicionamento, de seu temor, do desejo de bom êxito, da esperança de melhorar as coisas; e tal esforço só pode dificultar o descobrimento da solução correta.
Vede bem a importância disso.  Se reconheço que a revolução fundamental não pode ser produzida por nenhuma reação da mente consciente ou inconsciente; que todas essas reações estão baseadas no temor, que impele à aquisição, na memória, no tempo, e se encontram, portanto, na parte externa, na periferia — se reconheço tudo isso, então o que a mente deve fazer é ficar completamente tranquila, não achais?
A função da mente, por conseguinte, consiste apenas em perceber como surgem essas reações, e em não procurar conquistar um determinado estado ou produzir uma modificação no centro, pela ação da vontade. O que pode fazer é apenas observar as próprias reações. O observar, porém, exige paciência infinita; e se sois impaciente, a observação transforma-se num trabalho exaustivo, pois desejais progredir, desejais um resultado.
Só quando a mente está sempre cônscia de suas próprias reações de temor, de ganância, de inveja, de esperança, essas reações podem desaparecer; não desaparecem, porém, quando há condenação, comparação, julgamento. Só desaparecem pela observação simples, inteiramente isenta de escolha.
Jiddu Krishnamurti

José Batista de Carvalho | 20/11/2013 às 23:30

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