
Ariano Suassuna: escritor paraibano deixou 27 livros publicados. Ainda ativo na vida intelectual aos 87 anos, ele seguia influenciando artistas de todo o País
"Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre", disse Chicó, personagem de "Auto da Compadecida" ao amigo João Grilo, morto a seus pés.
Foi esse "mal irremediável" que se abateu ontem sobre o autor da obra-prima, adaptada para o cinema e a televisão, que acabou tornando-o popular em todo o Brasil.
Ariano Suassuna faleceu ontem, em Recife (PE), aos 87 anos. Às 17h15, o escritor sofreu uma parada cardíaca, provocada pela hipertensão intracraniana, segundo informou por meio de nota o Real Hospital Português do Recife. Suassuna estava internado desde segunda-feira, 21. Ele foi hospitalizado após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) do tipo hemorrágico. No dia em que foi internado, passou por uma cirurgia de emergência para a colocação de dois drenos, com o objetivo de controlar a pressão intracraniana provocada pelo AVC. O autor permanecia sob cuidados médicos na UTI Neurológica desde então.
No ano passado, Suassuna já havia sofrido um infarto, mas se recuperou rápido. Dois dias depois de receber alta, deu entrada novamente no hospital por causa de um aneurisma cerebral.
O sepultamento está marcado para hoje às 16h. Até as 15h, o corpo será velado no Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco. O governador, João Lyra Neto (PSB), decretou luto de três dias.
Ariano Suassuna nasceu na Paraíba, mas desde a adolescência vivia em Pernambuco. Era Ocupante da cadeira de número 32 da Academia Brasileira de Letras - da qual fazia parte desde 1989. O escritor foi traduzido para mais de oito idiomas, assinando cerca de 20 textos para o teatro; cinco obras em prosa e outras oito, entre poemas e reflexões teóricas sobre estética e cultura popular do Nordeste.
Obras
O entusiasmo com a riqueza e a originalidade que representavam as tradições nordestinas se fez presente em sua obra desde cedo. A primeira peça teatral, "Uma Mulher Vestida de Sol", foi escrita aos 20 anos e, nela, já havia referências aos temas do romance popular dos cordéis. Mais tarde, ficaria conhecido pela aguerrida defesa dos valores das tradições populares, não apenas do Nordeste, mas do Brasil.